31/10/2018 - Maria Luiza de Oliveira Martins     Twitter  Facebook  Google+  LinkedIn

Chegamos ao fim do mês de outubro, e como todos os anos, vivenciamos durante este mês, a campanha Outubro Rosa, louvável e útil em sua missão de divulgar e alertar as mulheres para a importância da prevenção do câncer de mama.

São inúmeras as iniciativas que ano a ano são criadas e aprimoradas para atingir um número cada vez maior de mulheres. A cada ano, as instituições se mobilizam, a mídia é mais eficiente em ampliar a faixa etária das mulheres alcançadas, e em superar as distâncias, chegando a mulheres que estão longe dos grandes centros, sempre com o intuito de informar, esclarecer e, principalmente, desmistificar o câncer de mama. Afinal, a desmistificação faz parte da estratégia de controle e prevenção. Quando encaramos o problema de frente, automaticamente ele se torna menor e mais fácil de superar. Consequentemente, quanto mais conhecimento sobre o câncer de mama, menos aterrorizante e menos ameaçador ele se torna. Nesse sentido, o caminho é encurtado, e quanto mais cedo o problema puder ser detectado, maior a chance de sucesso do tratamento.

Mas, ao se aproximar o fim de outubro, algumas reflexões sobre a campanha se fazem presentes.

É natural que as mulheres nos grandes centros urbanos tenham maior oportunidade de acesso à informação do que aquelas que estão em locais remotos e de difícil comunicação. Mesmo assim, a televisão e a internet hoje em dia alcançam muitos lares fora das metrópoles e a qualidade da comunicação já se torna mais eficaz já que, apesar da extensão do nosso país, o raio tem se ampliado e alcançado cada vez mais mulheres. Mas, ainda existe aquela mulher do interior verdadeiramente longínquo, de realidade diária dura e diferente da realidade urbana, que não tem televisão, que não tem internet, dispondo - às vezes e no máximo - de uma mídia impressa precária e insuficiente. Essa mulher depende da campanha ir até ela fisicamente. Para essa mulher, é preciso direcionar os esclarecimentos de forma personalizada, em linguagem acessível, concreta e didática, não só através de campanhas especiais, mas também, através da disponibilização dos recursos corretos para que ela possa atender às orientações da campanha.

Isso quer dizer que a mulher dos grandes centros é mais privilegiada e, por conseguinte, com maior probabilidade de sucesso na prevenção? Teoricamente, sim, já que tendo maior acesso à informação, espera-se que absorva maior conhecimento e ponha em prática corretamente as orientações sobre o autoexame e a observação visual da própria mama. Ainda assim, acontecem casos inesperados. De vez em quando, ficamos sabendo de alguém, uma mulher que mesmo esclarecida e informada, é surpreendida com uma notícia durante uma consulta ou um exame de rotina. E instala-se o medo, a insegurança. É o abismo pela frente.

O medo e a insegurança são sentimentos naturais, eles eclodem do mistério, de um futuro desconhecido. O que poderá acontecer? Há que se viver aquele hiato de tempo enquanto não se sabe qual será o prognóstico. Tudo é naturalmente assustador. Quimioterapia? Mastectomia? Radical? Parcial? E depois de passar pelos desconfortos do tratamento, ainda há que se esperar alguns anos para se ter a certeza da cura.

Paralelamente aos fantasmas da expectativa e à insegurança quanto à saúde física, a mulher também deverá lidar com os impactos dessas intervenções na sua imagem corporal. A mama é para a mulher um símbolo de sua feminilidade, tanto no que diz respeito à erotização de seu corpo, como também à missão suprema da maternidade. Mulheres valorizam e se preocupam com a aparência de seus seios desde sempre, algumas meninas desde cedo são atraídas pelo sutiã da mãe, brincam de vesti-lo, acalentam e “amamentam” suas bonecas, exercitando a missão feminina para a qual se sentem afetiva e biologicamente programadas. Perder a mama, ou parte dela, ou mesmo a ameaça da perda, para além da perda física, fatalmente implicará em um prejuízo da autoimagem, em um sentimento/sofrimento de ser castrada naquilo que é seu orgulho e sua identidade, fazendo desaparecer os referenciais de toda uma vida.

As questões psicológicas que envolvem o câncer de mama não têm recebido grande ênfase no Outubro Rosa, o que é compreensível, pois, a campanha foca basicamente nos procedimentos de prevenção da doença física. Mas, é importante frisar que, sob uma visão holística, a saúde não dissocia o aspecto físico do psicológico.

Portanto, o suporte psicológico adequado é vital não só para a mulher que está em tratamento, mas, também, incrivelmente, para aquela que está no foco da campanha de prevenção. A mulher em tratamento precisa elaborar e reconfigurar sua imagem corporal e, uma vez tendo seu narcisismo golpeado, reconstruir uma autoimagem sadia, prevenindo os reflexos em seu comportamento, atividades, relações interpessoais e sociais. A mulher no foco da prevenção, principalmente, aquela do interior longínquo, com pouco acesso à informação, precisa de outro tipo de suporte psicológico. Para esta, o suporte deve ser cognitivo, didático, em linguagem acessível, deve disponibilizar recursos para que ela siga as orientações, deve cobrar resultados e gerar estatísticas. Caso contrário, a campanha se perderá durante os demais meses do ano.

Principalmente, é preciso que todas as mulheres aprendam a conhecer o próprio corpo e saibam reconhecer quando ele fala e clama por atenção. E esse aprendizado só vem com muito apoio e orientação.

Este final de outubro, coincidentemente, marca o início de uma nova fase no nosso país, e novas esperanças surgem com a eleição do novo presidente da república. Torcemos para que o novo ministro da saúde privilegie a campanha de prevenção do câncer de mama incluindo uma abordagem psicológica preventiva para todas as mulheres, acompanhando e provendo recursos para a mulher que está longe, prevenindo também dessa forma, a culpa, a perda de referenciais, os danos à autoimagem e desajustes emocionais que possam gerar futuras manifestações psicossomáticas.

Que este outubro continue rosa em novembro, dezembro e todos os dias de todos os meses, de forma abrangente, justa e humanitária para as mulheres de todos os cantos desse Brasil. 


Maria Luiza de Oliveira Martins - Gerente de Parcerias Internacionais da Escola Nacional de Seguros.
É formada em Psicologia e Letras pela Universidade Santa Úrsula, com curso de formação pela Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. Anteriormente, trabalhou como psicóloga na ABBR - Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação e nas empresas Ericsson Telecomunicações e Claro Telecom.






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